PORT PERFECTION

Família

A pipa que o meu pai guardava

As pessoas imaginam muitas vezes as famílias do Vinho do Porto com uma adega: filas de pipas, um armazém, talvez um nome por cima da porta em Vila Nova de Gaia. Essa nunca foi a nossa história. O meu pai, Valentim, não tinha adega. Tinha um único barril, uma pipa, guardada em casa.

Fazia o seu próprio vinho, sobretudo Tawny e um pouco de tinto, com o que tinha aprendido com o marido de uma vizinha, e não com uma tradição de família passada de geração em geração. Não havia armazém herdado nem pilhas de documentos a provar décadas de produção. Apenas uma pipa, atestada todos os anos depois da vindima, de onde se tirava um pouco de cada vez sempre que era preciso: uma refeição, uma visita, uma festa.

O centro de algo maior do que parecia

É fácil romantizar a produção de vinho quando se imaginam filas de cascos de carvalho numa grande adega. Uma única pipa em casa é uma imagem muito mais pequena, e acho que é exatamente por isso que importa. Mostra como a presença do vinho é algo comum em muitas casas do Douro: não uma indústria, apenas uma parte do ano, num canto até ser preciso.

O meu pai não era daqui. Veio de Cabo Verde, e acho que aquela pipa se tornou uma das formas de criar raízes no vale. Não herdou o conhecimento, por isso construiu-o, uma vindima de cada vez, atestando a mesma pipa ano após ano até ela fazer simplesmente parte da forma como a nossa casa funcionava.

“Uma pipa, guardada em casa, de onde se tira vinho e que se atesta todos os anos: o centro silencioso da relação de uma família com o vinho.”

Aquela pipa é um dos pormenores que tive mais cuidado em retratar com verdade no Port Perfection. Teria sido mais simples inventar uma adega de família maior e mais dramática. Mas a história real, uma pipa, uma família, um pequeno ritual repetido durante anos, diz mais sobre a forma como o Vinho do Porto vive na maioria das casas do Douro do que qualquer versão grandiosa.

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